KANYNÃ PORANDUBA — SOBRE O AUTOR
Nascido no fim de julho de 1994, Kanynã Poranduba vive na Zona Leste de São Paulo — uma região que não aparece em sua escrita apenas como cenário, mas também como parte de sua maneira de enxergar o mundo. Ruas movimentadas, estações, construções antigas e os silêncios inesperados da madrugada ajudam a formar a cidade presente em suas histórias: concreta à primeira vista, mas cheia de caminhos para o desconhecido.
Formado em gastronomia, Kanynã é grande fã de histórias em quadrinhos e universos mágicos, além de colecionar miniaturas de personagens. Heróis, criaturas e mundos imaginários sempre despertaram seu interesse, mas foi nas histórias brasileiras, nos causos e nas lendas transmitidas entre gerações que encontrou o ponto de partida para construir seu próprio universo.
Para Kanynã, uma história não existe apenas porque alguém decidiu contá-la. Ela também depende de quem parou para ouvir. É na mesa da cozinha, ao redor de uma fogueira, durante uma viagem ou numa conversa que atravessa a madrugada que muitas lembranças encontram uma forma de continuar vivas. Elas passam de pais para filhos, de avós para netos, de tios para sobrinhos e de professores para alunos. Também fazem o caminho de volta, porque os mais novos carregam experiências e maneiras diferentes de enxergar o mundo que merecem ser compartilhadas.
Essa troca entre gerações está presente no próprio nome escolhido pelo autor. De origem tupi, a palavra “poranduba” pode reunir sentidos como notícia, novidade, história e narrativa oral. Para Kanynã, ela representa tanto o gesto de contar quanto a generosidade de escutar. Mais do que um nome literário, Poranduba tornou-se uma forma de definir aquilo que ele deseja fazer por meio da escrita: receber uma história, transformá-la e permitir que ela siga adiante.
Seu interesse pelo folclore brasileiro nasceu antes de qualquer descoberta sobre sua própria ancestralidade. Durante anos, Kanynã escreveu sobre causos, mistérios, criaturas e lugares que pareciam guardar algo além do que os olhos conseguiam enxergar. Curupira, Boitatá, Iara, Cuca, Saci, Boto, Mula sem Cabeça, Mapinguari e Lobisomem chamavam sua atenção não apenas pelo fantástico, mas pelas diferentes formas que assumiam em cada região. Uma mesma criatura podia mudar de aparência, comportamento e significado conforme a pessoa que contava sua história.
Mais tarde, movido pela curiosidade, Kanynã realizou um teste de ancestralidade genética. O resultado apontou referências ancestrais identificadas como Tupi-Arikém de um lado e Tupi-Mondé do outro. O percentual indicado no papel era pequeno. O impacto daquela descoberta, não.
Kanynã recebeu essa informação com respeito e cautela. Não como autorização para reivindicar uma vivência ou um pertencimento que não fizeram parte de sua formação, mas como um convite para conhecer melhor essas origens e prestar mais atenção às vozes de quem mantém essas culturas vivas. A descoberta não criou sua ligação com as histórias brasileiras, mas deu a ela uma nova dimensão. Ele percebeu que escrevia havia anos sobre tradições ligadas a uma parte de sua própria história sem saber que essa ligação existia.
Foi do encontro entre a cidade em que vive, seu interesse pelo fantástico, a investigação criminal e as histórias brasileiras que nasceu Pindorama Paranormal. Pindorama é um dos nomes antigos desta terra, em tupi, geralmente traduzido como “Terra das Palmeiras”. A escolha representa uma das principais propostas da série: colocar o Brasil no centro da fantasia e mostrar que não é preciso atravessar o oceano ou procurar castelos europeus para encontrar magia, mistério e assombração.
Pindorama Paranormal, entretanto, não é apenas uma reunião de lendas. A série combina fantasia urbana, suspense e investigação criminal dentro de um mundo mágico brasileiro. Boletins de ocorrência, desaparecimentos, depoimentos, laudos, cenas de crime e pistas aparentemente impossíveis se misturam a rastros deixados por criaturas antigas e forças que aprenderam a sobreviver sob o concreto das cidades.
Em seu romance de estreia, Pindorama Paranormal: Rastros na Floresta de Pedra, o desaparecimento de um jovem leva seu melhor amigo, Gabriel Baldan, a iniciar uma busca por respostas. O que começa como uma tentativa de encontrar alguém desaparecido revela, pouco a pouco, uma São Paulo oculta, na qual acontecimentos aparentemente comuns podem esconder explicações sobrenaturais. Cada pista conduz Gabriel para mais perto de um mundo que sempre existiu, embora a maioria das pessoas tenha aprendido a não enxergá-lo.
São Paulo ocupa um lugar central nessa construção. A cidade não funciona apenas como pano de fundo, mas como parte viva do mistério. Ruas da Zona Leste, estações de metrô, prédios antigos, caminhos em direção ao litoral e matas do Vale do Ribeira formam uma geografia ao mesmo tempo real e fantástica. Na escrita de Kanynã, o sobrenatural não está separado da vida cotidiana: ele se esconde dentro dela, confundindo-se com a pressa, o concreto, o barulho e os lugares pelos quais milhares de pessoas passam sem olhar duas vezes.
Kanynã não escreve para dar aulas de história nem para apresentar uma versão definitiva das tradições brasileiras. Escreve porque acredita que essas histórias precisam continuar circulando, encontrando novos leitores e despertando novas perguntas. Se uma de suas páginas levar alguém a procurar o nome de um povo, conhecer uma lenda ou perguntar aos mais velhos quais lembranças ainda guardam, então a história já terá seguido o seu caminho.
Seu objetivo é contribuir para que essas narrativas permaneçam vivas sem tratá-las como peças paradas no tempo. Em Pindorama Paranormal, elas ganham novos conflitos, atravessam cidades e encontram outras gerações. Para Kanynã Poranduba, algumas das melhores histórias do mundo podem estar escondidas no lugar para o qual quase nunca aprendemos a olhar: a nossa própria terra.
Por isso, escreve para convidar o leitor a enxergar o Brasil por uma perspectiva mágica — e a seguir os rastros daquilo que o asfalto e o concreto jamais conseguiram enterrar por completo.
Tive o privilégio de acompanhar Pindorama Paranormal quando esse universo ainda era formado por ideias, rascunhos e longas conversas. Vi de perto o cuidado com que Kanynã transformou cada pensamento em personagem, cada dúvida em mistério e cada pedaço de nossa cultura em parte viva dessa história. Em suas páginas, reconheço não apenas a imaginação do autor que admiro, mas também a sensibilidade da pessoa que ele é: curiosa, dedicada e verdadeiramente comprometida com aquilo em que acredita. Kanynã não escreveu este livro apenas para apresentar criaturas e aventuras; colocou nele suas raízes, suas inquietações e sua vontade de fazer o leitor enxergar o Brasil com outros olhos. Ter sido uma das primeiras pessoas a conhecer essa história e testemunhar seu nascimento foi um privilégio. Admiro o autor que ele se tornou e, ainda mais, a pessoa que sempre foi. Pindorama Paranormal nasceu de um sonho muito particular, mas agora está pronto para encontrar o mundo — e tenho certeza de que este é apenas o começo.
Tive o privilégio de acompanhar Pindorama Paranormal quando esse universo ainda era formado por ideias, rascunhos e longas conversas. Vi de perto o cuidado com que Kanynã transformou cada pensamento em personagem, cada dúvida em mistério e cada pedaço de nossa cultura em parte viva dessa história. Em suas páginas, reconheço não apenas a imaginação do autor que admiro, mas também a sensibilidade da pessoa que ele é: curiosa, dedicada e verdadeiramente comprometida com aquilo em que acredita. Kanynã não escreveu este livro apenas para apresentar criaturas e aventuras; colocou nele suas raízes, suas inquietações e sua vontade de fazer o leitor enxergar o Brasil com outros olhos. Ter sido uma das primeiras pessoas a conhecer essa história e testemunhar seu nascimento foi um privilégio. Admiro o autor que ele se tornou e, ainda mais, a pessoa que sempre foi. Pindorama Paranormal nasceu de um sonho muito particular, mas agora está pronto para encontrar o mundo — e tenho certeza de que este é apenas o começo.
Ass: Micaela Suzi