terça-feira, 8 de setembro de 2026

Como nasceu Pindorama Paranormal ?

Pindorama Paranormal nasceu de uma pergunta que parecia simples: por que, quando pensamos em fantasia, quase sempre procuramos a magia em castelos distantes, escolas estrangeiras e lendas de outros países, se o Brasil está cercado de histórias extraordinárias? Eu queria criar um universo que não exigisse atravessar nenhum portal. Um mundo mágico que estivesse aqui, nas ruas de São Paulo, nas estradas, nas matas e nas histórias transmitidas de uma pessoa para outra,, escondido bem diante dos nossos olhos.

Foi dessa vontade que surgiu Rastros na Floresta de Pedra. Quando Ícaro Meire desaparece sem deixar rastros, seu melhor amigo, Gabriel Baldan, começa uma busca por respostas. O que parecia ser apenas um desaparecimento o conduz a uma São Paulo oculta sob o concreto, onde criaturas que muita gente chama de lenda continuam vivas, e nem todas querem ser encontradas.

Eu não queria apenas pegar personagens do folclore brasileiro e colocá-los dentro de uma aventura. Queria imaginar como essas criaturas existiriam nos dias de hoje: por onde passariam, como sobreviveriam e o que aconteceria se seus rastros surgissem no meio de uma cidade que aprendeu a ignorar tudo aquilo que não consegue explicar. Pindorama Paranormal começou a crescer justamente nesse encontro entre o cotidiano e o impossível.

Ao seguir as pistas deixadas por Ícaro, Gabriel atravessa a cidade, o litoral e o interior paulista. Encontra corpos com marcas que nenhum laudo consegue explicar, uma criatura transformada em lenda urbana pela internet e uma mineradora cujo nome começa a aparecer onde não deveria. Mas Gabriel ainda não é um investigador. É apenas alguém assustado, curioso e teimoso, tentando salvar o melhor amigo enquanto descobre que também faz parte daquele mundo.

Talvez seja por isso que Pindorama Paranormal seja tão pessoal para mim. Esse universo nasceu do desejo de olhar para o Brasil com mais imaginação, mas também com mais respeito. Aqui, as lendas não são apenas enfeites ou monstros colocados na história para assustar. Elas carregam memória, território e as diferentes maneiras que nossos povos encontraram para compreender aquilo que não cabia em explicações simples. A magia não veio de fora. Ela já estava aqui.

No fim, Pindorama Paranormal é uma história sobre amizade, desaparecimentos e segredos escondidos sob o concreto, mas também é um convite. Um convite para seguir os rastros ao lado de Gabriel e olhar com um pouco mais de atenção para as ruas, as sombras e os silêncios ao nosso redor. Afinal, quantos segredos podem existir sob o concreto de uma cidade? E se as nossas lendas nunca tivessem desaparecido, mas apenas aprendido a viver fora dos nossos olhos?

Quem é Kanynã Poranduba ?


KANYNÃ PORANDUBA — SOBRE O AUTOR
Nascido no fim de julho de 1994, Kanynã Poranduba vive na Zona Leste de São Paulo — uma região que não aparece em sua escrita apenas como cenário, mas também como parte de sua maneira de enxergar o mundo. Ruas movimentadas, estações, construções antigas e os silêncios inesperados da madrugada ajudam a formar a cidade presente em suas histórias: concreta à primeira vista, mas cheia de caminhos para o desconhecido.

Formado em gastronomia, Kanynã é grande fã de histórias em quadrinhos e universos mágicos, além de colecionar miniaturas de personagens. Heróis, criaturas e mundos imaginários sempre despertaram seu interesse, mas foi nas histórias brasileiras, nos causos e nas lendas transmitidas entre gerações que encontrou o ponto de partida para construir seu próprio universo.

Para Kanynã, uma história não existe apenas porque alguém decidiu contá-la. Ela também depende de quem parou para ouvir. É na mesa da cozinha, ao redor de uma fogueira, durante uma viagem ou numa conversa que atravessa a madrugada que muitas lembranças encontram uma forma de continuar vivas. Elas passam de pais para filhos, de avós para netos, de tios para sobrinhos e de professores para alunos. Também fazem o caminho de volta, porque os mais novos carregam experiências e maneiras diferentes de enxergar o mundo que merecem ser compartilhadas.

Essa troca entre gerações está presente no próprio nome escolhido pelo autor. De origem tupi, a palavra “poranduba” pode reunir sentidos como notícia, novidade, história e narrativa oral. Para Kanynã, ela representa tanto o gesto de contar quanto a generosidade de escutar. Mais do que um nome literário, Poranduba tornou-se uma forma de definir aquilo que ele deseja fazer por meio da escrita: receber uma história, transformá-la e permitir que ela siga adiante.

Seu interesse pelo folclore brasileiro nasceu antes de qualquer descoberta sobre sua própria ancestralidade. Durante anos, Kanynã escreveu sobre causos, mistérios, criaturas e lugares que pareciam guardar algo além do que os olhos conseguiam enxergar. Curupira, Boitatá, Iara, Cuca, Saci, Boto, Mula sem Cabeça, Mapinguari e Lobisomem chamavam sua atenção não apenas pelo fantástico, mas pelas diferentes formas que assumiam em cada região. Uma mesma criatura podia mudar de aparência, comportamento e significado conforme a pessoa que contava sua história.

Mais tarde, movido pela curiosidade, Kanynã realizou um teste de ancestralidade genética. O resultado apontou referências ancestrais identificadas como Tupi-Arikém de um lado e Tupi-Mondé do outro. O percentual indicado no papel era pequeno. O impacto daquela descoberta, não.

Kanynã recebeu essa informação com respeito e cautela. Não como autorização para reivindicar uma vivência ou um pertencimento que não fizeram parte de sua formação, mas como um convite para conhecer melhor essas origens e prestar mais atenção às vozes de quem mantém essas culturas vivas. A descoberta não criou sua ligação com as histórias brasileiras, mas deu a ela uma nova dimensão. Ele percebeu que escrevia havia anos sobre tradições ligadas a uma parte de sua própria história sem saber que essa ligação existia.

Foi do encontro entre a cidade em que vive, seu interesse pelo fantástico, a investigação criminal e as histórias brasileiras que nasceu Pindorama Paranormal. Pindorama é um dos nomes antigos desta terra, em tupi, geralmente traduzido como “Terra das Palmeiras”. A escolha representa uma das principais propostas da série: colocar o Brasil no centro da fantasia e mostrar que não é preciso atravessar o oceano ou procurar castelos europeus para encontrar magia, mistério e assombração.

Pindorama Paranormal, entretanto, não é apenas uma reunião de lendas. A série combina fantasia urbana, suspense e investigação criminal dentro de um mundo mágico brasileiro. Boletins de ocorrência, desaparecimentos, depoimentos, laudos, cenas de crime e pistas aparentemente impossíveis se misturam a rastros deixados por criaturas antigas e forças que aprenderam a sobreviver sob o concreto das cidades.

Em seu romance de estreia, Pindorama Paranormal: Rastros na Floresta de Pedra, o desaparecimento de um jovem leva seu melhor amigo, Gabriel Baldan, a iniciar uma busca por respostas. O que começa como uma tentativa de encontrar alguém desaparecido revela, pouco a pouco, uma São Paulo oculta, na qual acontecimentos aparentemente comuns podem esconder explicações sobrenaturais. Cada pista conduz Gabriel para mais perto de um mundo que sempre existiu, embora a maioria das pessoas tenha aprendido a não enxergá-lo.

São Paulo ocupa um lugar central nessa construção. A cidade não funciona apenas como pano de fundo, mas como parte viva do mistério. Ruas da Zona Leste, estações de metrô, prédios antigos, caminhos em direção ao litoral e matas do Vale do Ribeira formam uma geografia ao mesmo tempo real e fantástica. Na escrita de Kanynã, o sobrenatural não está separado da vida cotidiana: ele se esconde dentro dela, confundindo-se com a pressa, o concreto, o barulho e os lugares pelos quais milhares de pessoas passam sem olhar duas vezes.

Kanynã não escreve para dar aulas de história nem para apresentar uma versão definitiva das tradições brasileiras. Escreve porque acredita que essas histórias precisam continuar circulando, encontrando novos leitores e despertando novas perguntas. Se uma de suas páginas levar alguém a procurar o nome de um povo, conhecer uma lenda ou perguntar aos mais velhos quais lembranças ainda guardam, então a história já terá seguido o seu caminho.

Seu objetivo é contribuir para que essas narrativas permaneçam vivas sem tratá-las como peças paradas no tempo. Em Pindorama Paranormal, elas ganham novos conflitos, atravessam cidades e encontram outras gerações. Para Kanynã Poranduba, algumas das melhores histórias do mundo podem estar escondidas no lugar para o qual quase nunca aprendemos a olhar: a nossa própria terra.

Por isso, escreve para convidar o leitor a enxergar o Brasil por uma perspectiva mágica — e a seguir os rastros daquilo que o asfalto e o concreto jamais conseguiram enterrar por completo.
Tive o privilégio de acompanhar Pindorama Paranormal quando esse universo ainda era formado por ideias, rascunhos e longas conversas. Vi de perto o cuidado com que Kanynã transformou cada pensamento em personagem, cada dúvida em mistério e cada pedaço de nossa cultura em parte viva dessa história. Em suas páginas, reconheço não apenas a imaginação do autor que admiro, mas também a sensibilidade da pessoa que ele é: curiosa, dedicada e verdadeiramente comprometida com aquilo em que acredita. Kanynã não escreveu este livro apenas para apresentar criaturas e aventuras; colocou nele suas raízes, suas inquietações e sua vontade de fazer o leitor enxergar o Brasil com outros olhos. Ter sido uma das primeiras pessoas a conhecer essa história e testemunhar seu nascimento foi um privilégio. Admiro o autor que ele se tornou e, ainda mais, a pessoa que sempre foi. Pindorama Paranormal nasceu de um sonho muito particular, mas agora está pronto para encontrar o mundo — e tenho certeza de que este é apenas o começo.
Tive o privilégio de acompanhar Pindorama Paranormal quando esse universo ainda era formado por ideias, rascunhos e longas conversas. Vi de perto o cuidado com que Kanynã transformou cada pensamento em personagem, cada dúvida em mistério e cada pedaço de nossa cultura em parte viva dessa história. Em suas páginas, reconheço não apenas a imaginação do autor que admiro, mas também a sensibilidade da pessoa que ele é: curiosa, dedicada e verdadeiramente comprometida com aquilo em que acredita. Kanynã não escreveu este livro apenas para apresentar criaturas e aventuras; colocou nele suas raízes, suas inquietações e sua vontade de fazer o leitor enxergar o Brasil com outros olhos. Ter sido uma das primeiras pessoas a conhecer essa história e testemunhar seu nascimento foi um privilégio. Admiro o autor que ele se tornou e, ainda mais, a pessoa que sempre foi. Pindorama Paranormal nasceu de um sonho muito particular, mas agora está pronto para encontrar o mundo — e tenho certeza de que este é apenas o começo.
 Ass: Micaela Suzi

sábado, 5 de setembro de 2026

Os Guarás: os lobisomens de sangue vermelho de Pindorama Paranormal

Os Guarás: os lobisomens de sangue vermelho de Pindorama Paranormal


Os Guarás e Agûará-Eté Pyranga fazem parte da mitologia ficcional de Pindorama Paranormal, inspirada no lobo-guará, no Cerrado e nas diferentes versões da lenda do lobisomem contadas pelo Brasil.

Quando ouvimos a palavra lobisomem, quase sempre imaginamos uma criatura de pelo cinzento, focinho de lobo e corpo pesado, saída das histórias trazidas da Europa. Mas as noites brasileiras nunca precisaram de lobos estrangeiros para criar seus próprios monstros.

Muito antes de outras linhagens atravessarem o oceano, Pindorama já conhecia os Guarás.

Eles não carregavam uma doença nem haviam sido condenados por uma maldição. O que corria em suas veias era uma herança antiga, ligada à terra, ao sangue e ao movimento da Lua.

«“Isso não é maldição, garoto. É herança. O Agûará escolheu seu sangue antes de você nascer.”»

A origem dos Guarás

As histórias mais antigas atribuem o primeiro sangue a Agûará-Eté Pyranga, o Grande Espírito Guerreiro do Lobo-Guará Vermelho. Dizem que ele não escolhia qualquer pessoa. O sangue atravessava determinadas famílias e despertava em um nascimento específico.

Algumas versões falam no sétimo filho. Outras dizem que era o filho de um sétimo filho que nascia preparado para a transformação, sem precisar de mordida. Como acontece com toda história transmitida de boca em boca, os detalhes mudam conforme quem conta. O que permanece é a ideia de que um Guará original não era feito: ele nascia assim.

Relatos também mencionam as Sete Alcateias de Pindorama, formadas pelos descendentes desse primeiro sangue. Ninguém sabe dizer se foram realmente sete grupos ou se o número acabou se tornando parte da lenda. Talvez cada alcateia guardasse um território. Talvez fossem sete ramos da mesma família. Talvez nunca tenham existido exatamente como são lembradas. Em Pindorama, até a verdade aprende a se esconder dentro das histórias.

Um lobisomem com a forma desta terra

O Guará não possui o corpo largo de um lobo europeu. É alto, estreito e desproporcional. Suas pernas parecem longas demais, as orelhas se erguem acima da cabeça e uma crina escura acompanha a parte de trás do pescoço. A pelagem varia entre o vermelho, o cobre e o laranja queimado, enquanto os braços e as pernas escurecem quase até o preto.

Parado, ele parece observar tudo ao redor. Correndo, parece atravessar a vegetação sem tocar o chão.

Sua aparência lembra o lobo-guará, mas não se limita a imitá-lo. O animal empresta à criatura a silhueta, a cor e a maneira solitária de ocupar a paisagem. O restante pertence ao Agûará: a força, a consciência dividida e o chamado que cresce no sangue conforme a Lua muda no céu.

A Lua não transforma apenas uma noite

Para os Guarás, a Lua Cheia não é um acontecimento isolado. Ela puxa o sangue durante o mês inteiro, e cada fase altera o corpo de uma maneira diferente.

Na Lua Nova, o Agûará permanece recolhido. O corpo se aproxima da aparência humana, recupera-se das transformações anteriores e fica mais vulnerável. É um período de repouso, cura e antigos rituais.

Durante a Lua Crescente, os sentidos despertam. Audição, olfato, força e velocidade aumentam, mas a mente humana ainda conserva maior domínio sobre a criatura. É também o momento em que uma mordida tem mais chance de ser aceita pelo corpo. Há registros que falam em uma possibilidade de aceitação de até noventa e sete por cento,, um cálculo nascido de observações e experiências acumuladas ao longo do tempo, não de uma certeza preservada pela tradição.

Nos dias em que a Crescente se aproxima da Cheia surge a chamada Lua do Guará: a força está perto do limite, mas a consciência ainda não foi completamente arrastada pelo instinto. Os mais antigos consideravam esse o verdadeiro momento de poder. Afinal, força sem pensamento serve apenas para destruir.

Na Lua Cheia, o Agûará assume. A transformação alcança o auge, assim como a força, a velocidade e a ferocidade. Os recém-chegados quase não conseguem se reconhecer dentro da própria pele. Os mais velhos ainda pensam, escolhem caminhos e distinguem aliados de inimigos, embora a criatura nunca permaneça inteiramente em silêncio.

Depois vem a Lua Minguante, trazendo a ressaca da transformação: febre, dores, fraqueza e uma exaustão que parece atravessar os ossos. O corpo cobra tudo o que a fera tomou emprestado.

A fruta-do-lobo

No universo de Pindorama Paranormal, a fruta-do-lobo não recebeu esse nome por acaso. Ligada ao Cerrado e aos antigos rituais dos Guarás, ela funciona como alimento, remédio e instrumento de transformação.

Consumida crua durante a Lua Minguante, ajuda o corpo a se recuperar. Fervida com sangue, reduz a dor da mudança. Misturada a determinadas raízes, pode acelerar a metamorfose de alguém que acabou de receber a mordida.

O conhecimento sobre esses usos não chegou inteiro ao presente. Uma parte foi preservada por famílias do clã; outra sobreviveu em fragmentos, refeita por diferentes gerações por meio de tentativas, erros e adaptações. Por isso, a mesma fruta capaz de aliviar a dor também pode ser usada para forçar o sangue do Agûará além de seus limites.

Herança e mordida

Os Guarás originais nasciam com a transformação no sangue. A mordida surgiu depois, como uma forma de transmitir aquilo que antes dependia apenas da linhagem. Mesmo assim, ela não funciona em todos.

O corpo de quem recebe a mordida precisa aceitá-la. A origem de quem morde, Guará, estrangeira ou misturada , não garante o resultado. É o sangue do novo corpo que decide se a transformação será concluída, rejeitada ou interrompida no meio do caminho.

Por isso, as antigas alcateias mantinham uma regra: ninguém deveria ser mordido sem aceitar. Como se dizia entre eles:

«“O Agûará escolhe o sangue. O homem escolhe morder ou não.”»

Com a chegada de linhagens estrangeiras e a mistura entre diferentes tipos de lobisomem, essa regra deixou de ser respeitada por todos. O sangue mudou. As alcateias também. O que antes era nascimento passou a ser recrutamento; o que era herança, para alguns, tornou-se ferramenta de poder.

O sangue que restou

Acredita-se que a linhagem original dos Guarás tenha desaparecido. Ainda assim, certas características continuam surgindo entre seus descendentes.

Em alguns, aparecem pernas muito longas, orelhas compridas, crina escura, membros quase negros e uma pelagem que varia do cobre ao vermelho-alaranjado. Há corpos que levam vários minutos para completar a mudança. Outros parecem se lembrar de um caminho que o sangue já percorreu muitas vezes.

Esses traços não se manifestam da mesma maneira em todos. Alguns integrantes carregam sinais mais evidentes do antigo Agûará; outros revelam marcas das linhagens que, ao longo do tempo, passaram a fazer parte do clã. Nenhum deles, sozinho, representa o que os Guarás são.

O clã é formado por muitas histórias, diferentes sangues e várias maneiras de carregar a mesma herança. É no conjunto dessas diferenças que sobrevive algo muito antigo, algo que o tempo, as viagens e o surgimento de novas alcateias não conseguiram apagar.

Em Pindorama Paranormal, o lobisomem brasileiro não é apenas uma criatura estrangeira colocada sob a Lua do nosso céu. Ele carrega a forma da nossa fauna, alimenta-se de uma planta do nosso Cerrado e obedece a regras que nasceram nesta terra.

Talvez seja por isso que o Guará cause tanto medo. Não porque chegou de algum lugar distante, mas porque já estava aqui muito antes de alguém decidir dar um nome ao seu rastro.

domingo, 30 de agosto de 2026

Oque é Mitologia?

O QUE É MITOLOGIA PORANDUBA?

O CONTO DA ORIGEM

Antes de o mundo caber nos livros, ele cabia na voz de alguém.

Uma pessoa contava por que a onça podia ser encontrada no céu, por que certas árvores não deveriam ser derrubadas ou por que era preciso pedir licença antes de entrar no rio. Outra pessoa escutava, guardava aquelas palavras e, muitos anos depois, tornava a contá-las.

Assim, uma história atravessava o tempo.

Quando ouvimos a palavra “mito”, muitas vezes pensamos em algo falso, inventado ou impossível. Mas mitologia não é sinônimo de mentira. Também não é apenas uma coleção de criaturas fantásticas guardada em livros escolares.

Mitologia é uma maneira de compreender o mundo.

Ela nasce quando um povo procura explicar sua origem, sua relação com a terra, os perigos da mata, os movimentos do céu e aquilo que existe além do que os olhos conseguem alcançar. Está no barulho entre as árvores que ninguém sabe explicar, na presença sentida perto da água, na razão de uma árvore permanecer de pé e nos cuidados que precisam ser tomados antes de atravessar determinados caminhos.

O Brasil reúne muitos povos indígenas, cada um com sua língua, suas memórias, suas crenças e sua própria maneira de interpretar a existência. Por isso, não existe uma única “mitologia indígena”. Existem muitos mundos, preservados e compartilhados por povos diferentes, com histórias que atravessam gerações há muito mais tempo do que qualquer livro escrito sobre elas.

Essas narrativas não serviam apenas para preencher o silêncio de uma noite. Elas ensinavam a viver.

Quando uma história dizia que determinada árvore possuía um guardião, também ensinava que nem tudo deveria ser destruído. Quando alguém pedia licença antes de entrar em um rio, reconhecia que a água não era apenas um recurso disponível, mas parte de uma existência compartilhada. Quando a onça aparecia entre as estrelas, o céu deixava de ser somente distância e passava a guardar memória.

Onça marcando o céu, seres que protegem os rios, espíritos que caminham pela mata: isso não é simples decoração fantástica. É geografia sagrada. É memória, limite e regra de convivência. É uma maneira de lembrar que a terra não pertence somente a quem está vivo agora.

Talvez seja justamente isso que essas histórias ainda possam nos perguntar: em que momento deixamos de enxergar o mundo como algo vivo? Quando foi que uma mata passou a ser apenas terreno, um rio se tornou apenas água e uma árvore virou somente madeira?

O que perdemos quando deixamos de pedir licença?

As histórias transmitidas dos mais velhos aos mais novos carregam muito mais do que acontecimentos. Carregam experiências, avisos, lembranças e formas de olhar. Quem escuta recebe algo que existia antes de sua chegada e assume a responsabilidade de decidir o que fará com aquilo.

Pode guardar. Pode esquecer. Ou pode contar novamente.

Pindorama Paranormal nasce do desejo de escutar essas histórias e imaginar os rastros que elas ainda deixariam no presente. Não para falar em nome dos povos que as mantêm vivas, substituir suas vozes ou apresentar uma explicação definitiva sobre suas tradições. Este livro é uma obra de ficção e, como toda ficção, transforma, mistura e imagina.

Seu convite é outro: despertar a curiosidade.

Curiosidade para procurar o nome de um povo que você ainda não conhecia. Para descobrir que uma mesma criatura pode possuir histórias diferentes em cada região. Para perguntar aos mais velhos quais causos eles ainda guardam. Para olhar uma mata, um rio ou uma noite estrelada e imaginar quantas histórias existem ali, mesmo que ninguém tenha parado para contá-las a você.

Mitologia não é uma porta usada para fugir do mundo real. É uma maneira de observá-lo mais profundamente.

Talvez, depois de conhecer uma dessas histórias, uma árvore nunca mais seja apenas uma árvore. Talvez o som vindo da mata durante a noite faça você interromper os passos por alguns segundos. Talvez, antes de entrar em um rio, alguma parte de você sinta vontade de pedir licença.

Se isso acontecer, a história não terminou.

Ela apenas encontrou mais alguém disposto a escutar.

Ass: Kanynã Poranduba 

Por que Pindorama Paranormal

POR QUE PINDORAMA PARANORMAL?

Pindorama porque esta história olha primeiro para o chão em que pisa.
Paranormal porque, sob esse chão, há coisas que nunca foram embora.

Pindorama é um dos nomes antigos desta terra, em tupi: Terra das Palmeiras. Um nome que existia antes de o Brasil ser Brasil, antes de qualquer caravela aparecer no litoral.

Escolhi esse nome porque, para encontrar magia, mistério e assombração, não precisamos atravessar o oceano. O fantástico sempre esteve aqui, nas histórias contadas de boca em boca e nas criaturas que mudam de nome, forma e comportamento conforme atravessam um estado, uma cidade ou uma família.

Curupira, Boitatá, Iara, Cuca, Saci, Boto, Mula sem Cabeça, Mapinguari, Lobisomem. Algumas dessas lendas nasceram aqui; outras chegaram de longe e foram transformadas pela nossa terra e pela voz de quem as contou. Todas acabaram se tornando parte daquilo que somos.

Mas Pindorama Paranormal não é apenas uma reunião de lendas. No centro da série existe uma investigação criminal.

O desaparecimento do melhor amigo de Gabriel Baldan dá início a uma busca por respostas que, aos poucos, revela crimes, pistas, laudos, depoimentos e cenas que não obedecem às regras do mundo conhecido. Cada rastro conduz Gabriel mais fundo em um mundo mágico brasileiro escondido sob o concreto de São Paulo.

É aí que o paranormal entra: não como enfeite, mas como parte do mistério. Ele pode estar numa marca impossível deixada em um corpo, num rastro que nenhum animal deveria produzir, numa mata que ficou quieta demais, num rio de água escura ou numa rua da Zona Leste às três da manhã.

A gente cresceu ouvindo essas histórias e depois foi convencido de que o assombro de verdade morava em castelos europeus.

Não morava.
Mora aqui.

O mapa da série segue a mesma ideia. Nele, o continente aparece com o sul no alto. Mapa não tem lado certo. Girá-lo não é colocar o mundo de cabeça para baixo. É apenas mudar o ponto de vista e lembrar de onde esta história escolheu olhar.
Pindorama, porque o centro desta história é aqui.
Paranormal, porque aquilo que tentaram esconder continua deixando rastros.
Pindorama Paranormal é uma série de fantasia urbana e investigação criminal no mundo mágico brasileiro.

Ass. KANYNÃ PORANDUBA 

Como nasceu Pindorama Paranormal ?

Pindorama Paranormal nasceu de uma pergunta que parecia simples: por que, quando pensamos em fantasia, quase sempre procuramos a...